Corrida cancelada: crise nos aplicativos de transporte revela a complexidade do problema urbano

Por Andrey Barbosa

Aplicativos de transporte enfrentam crise provocada por alta nos combustíveis e problemas na remuneração. Imagem: Techtudo

Nos últimos meses, tem sido notado por parte de usuários e motoristas uma perda significativa na qualidade de aplicativos de transporte, como a Uber e 99. Dificuldade para encontrar motoristas, cancelamentos de corridas e ocorrências relacionadas a um atendimento ruim são algumas das principais reclamações de usuários [1]. Nesse mesmo período, uma quantidade considerável de passageiros tem migrado dos aplicativos de transporte para os táxis, que foram o primeiro alvo da concorrência dos apps, e hoje veem sua base de clientes crescer significativamente[2].

Apesar dos problemas recentes, é importante lembrar que nem sempre foi assim. Quando foi lançada em 2013, a Uber se posicionava como um serviço diferenciado em relação ao táxi, com ganhos de qualidade no serviço, atendimento, e preços mais em conta, o que levou à sua defesa apaixonada por muitos grupos políticos como a revolução no transporte urbano (sic). Porém, com a saída de alguns concorrentes do mercado, aumento no preço dos combustíveis, e insatisfação com a remuneração de motoristas parceiros, a qualidade dos serviços caiu vertiginosamente.

Paralelamente, outro serviço de transporte que fora muito celebrado no passado, como uma revolução no transporte urbano, está em uma intensa crise no seu modelo de negócios, bastante intensificada pela pandemia. Os patinetes elétricos tiveram seu auge entre 2018 e 2019, porém, devido a características do mercado e implicações da pandemia não vingaram no Brasil. As operações encolheram, com muitas cidades deixando de ser atendidas nesse período, e as que ainda tem o serviço, com uma oferta bastante reduzida em relação ao ápice [3].

Semelhanças entre carros compartilhados e patinetes elétricos

Soluções de nicho, eficientes para alguns mercados, não todos

Assim como os patinetes elétricos, serviços de carros compartilhados como Uber e 99 são inovações que foram muito celebradas, e alvo de defesa apaixonada por alguns grupos ideológicos, mas que no entanto, se mostraram eficientes apenas para nichos específicos. Dizer que apenas um modelo de negócio é o suficiente para fornecer transporte para uma cidade de milhões de pessoas, com perfis de deslocamentos completamente diferentes, é claramente um equívoco.

É compreensível a euforia com uma inovação que atende muito bem a um nicho, mas é importante entender suas limitações e manter as expectativas em um nível que não cause frustrações. O mercado é dinâmico, e mesmo modelos de negócio inicialmente de sucesso, podem não resistir a provas importantes como crises econômicas e sanitárias, como foi o cenário que se desenhou desde 2020.

É necessário considerar externalidades

No seu período de maturação, um modelo de negócios pode mostrar muitas externalidades positivas e negativas. Nesse sentido, aplicativos de transporte privado tiveram muitas boas contribuições para a sociedade, como a diminuição nas mortes no trânsito e oferta de transporte noturno, que é um problema na maioria das cidades brasileiras, que não possuem transporte público noturno [4]. Na região metropolitana do Rio de Janeiro, por exemplo, chega a 77% o percentual de pessoas que preferem usar aplicativos de transporte em vez de dirigirem sob efeito de álcool.

Apesar disso, também é necessário se considerar externalidades negativas. No caso dos apps de transporte, uma migração de demanda do transporte público para os serviços privados pode aprofundar a crise financeira e de demanda no sistema, assim como aumenta as emissões de gases de efeito estufa (GEEs) das cidades, pelo maior uso de automóveis, que mesmo compartilhados, são menos eficientes energeticamente que ônibus e trens [5]. Similarmente, patinetes elétricos, apesar de não emitirem poluentes durante o uso, possuem um processo de produção e distribuição pouco sustentável, intensificado pela sua baixa vida útil, conforme mostrou um estudo publicado na revista Environmental Research Letters[6].

Multimodalidade

Conforme falado anteriormente, em cidades de milhões de habitantes com perfis diversos de deslocamentos, seria simplista dizer que apenas um modelo de negócios é suficiente para atender às necessidades de deslocamento. As evidências apontam para a necessidade de uma rede de transportes multimodal, com diferentes modos atendendo a perfis diferentes de deslocamento.

As próprias empresas do setor de compartilhamento estão atentas a essas necessidades, e algumas delas estão investindo em soluções MaaS (Mobility as a Service), intermediando vendas de bilhetes de transporte público em suas plataformas e integrando as viagens com seus serviços. Na cidade de Denver (EUA), a Uber já intermedia vendas de bilhetes de ônibus em sua plataforma [7]. No Rio de Janeiro, quem compra bilhetes do metrô pode ter até 35% de desconto no 99 Pop [8].

Complexidade do problema urbano e a importância de políticas públicas

Ambos os serviços nasceram diante de problemas de mobilidade urbana, como a acessibilidade do transporte público, capilaridade das redes de ônibus e metrô, e o baixo custo-benefício de muitas das viagens. Apesar disso, essas questões são complexas, e um modelo de negócios específico fornece apenas uma solução parcial para estes problemas.

Em cidades com políticas de zoneamento urbano restritivo, por exemplo, é esperado que as distâncias de deslocamento sejam maiores, e por consequência, o transporte público tenha uma menor viabilidade econômico-financeira, o que torna a operação das suas linhas menos atrativa para as empresas concessionárias. Nesse cenário, a existência de apps de transporte resolve parcialmente o problema, mas as condições que tornam o deslocamento mais difícil ainda estão presentes.

Por outro lado, a ausência de faixas exclusivas para bicicletas e patinetes pode inviabilizar inovações nessa área, como os patinetes elétricos compartilhados. É importante ressaltar que em São Paulo, alguns anos antes do desembarque dos patinetes compartilhados, a cidade teve uma grande expansão da rede cicloviária, com a implantação da ciclovia da Avenida Paulista sendo a mais representativa desse processo [9].

Conclusão

Mesmo com a iniciativa privada trazendo inovações que mudam completamente os mercados de transporte nas cidades, políticas públicas de gestão e planejamento urbano se mostram ainda relevantes e necessárias, pois além de viabilizar estas inovações, tem um raio de ação mais amplo que os atores privados, normalmente limitados a segmentos específicos. Especialmente o planejamento urbano, com erros históricos como zonas de uso exclusivamente residencial, limitações à densidade e estímulo ao uso de carros particulares, precisam necessariamente ser corrigidos por ações governamentais na direção oposta.

As defesas apaixonadas normalmente não contemplam estas questões, apostando todas as fichas em modelos de negócios que não nasceram para trazer respostas a todas as questões urbanas. É necessário, além de se levar em conta as vantagens, também considerar os riscos e desvantagens de cada modelo de negócio, possibilitando que as inovações nasçam, e corrigindo possíveis externalidades negativas através de políticas públicas direcionadas.

Referências:

[1] https://veja.abril.com.br/economia/aplicativos-de-transporte-como-uber-e-99-enfrentam-sua-maior-crise/

[2] https://diariodotransporte.com.br/2021/08/22/passageiros-insatisfeitos-com-aplicativos-de-transporte-aumentam-demanda-de-taxis-em-60/

[3] https://veja.abril.com.br/economia/crise-dos-patinetes-por-que-grow-e-lime-reduziram-operacao-no-brasil/

[4] https://epocanegocios.globo.com/Brasil/noticia/2019/05/aumento-do-uso-de-aplicativos-reduz-mortes-no-transito-diz-pesquisa.html

[5] http://files.antp.org.br/2019/10/23/estudo-do-impacto-do-tranporte-por-aplicativo-no-transporte-publico-por-onibus--antp_1.pdf

[6] https://iopscience.iop.org/article/10.1088/1748-9326/ab2da8/pdf

[7] https://www.startse.com/noticia/nova-economia/uber-transporte-publico

[8] https://viatrolebus.com.br/2021/02/desconto-entre-metrorio-e-99-pop-e-aumentando-e-prorrogado/

[9] https://vadebike.org/2016/06/historia-ciclovia-paulista/